Ontem chorei ao dormir por medo de não conseguir ter filhos biológicos. Foi triste, claro, mas também carrega algo, como dizer..., risível. Explico. Há alguns anos eu havia me decidido por não ter filhos de nenhum modo. Mas as relações nos modificam e aí está tragicomicidade do meu choro.
A ideia de gerar e gestar me é encantadora, a maternidade não. Esta me assusta por seu caráter eterno, assim como a bala que nunca acaba de uma personagem clariciana. Aos meus vinte e poucos anos, em um grande amor vivido, pensávamos sobre isso. Em um dos melhores momentos de nossa relação, enquanto viajávamos, escolhemos nomes e compramos roupas típicas locais para os futuros bebês. O relacionamento acabou.
Já perto dos 30, havia descartado a maternidade de meus sonhos e planos futuros. Não por uma desilusão do término vivido, tive a sorte de encontrar um grande amor novamente. E, para ele, na constituição de nossa vida, era desejada a ideia dos filhos. Ao longo dessa duradoura relação, minhas vontades se moveram, novos nomes foram escolhidos e, para além de um sonho ou vontade, começamos a planejar a gravidez.
Assim que eu fizesse 35 anos, independentemente de estarmos com a vida plenamente acertada, pois sabemos que isso nunca acontece de fato, seria o momento ideal de colocar em curso essa nova etapa da nossa vida. Aí fiquei quase eufórica, a cada possibilidade de mudança de cidade que parecia ocorrer, eu estudava como fazer para os processos de acompanhamento da gestação e dos meses iniciais. Contei aos amigos os planos, conversava com minha mãe sobre a disponibilidade que ela teria de nos ajudar nos primeiros meses, escolhemos os padrinhos do primeiro que viria. Decidimos por termos dois.
Pouco depois de meu aniversário, ele terminou nossa relação. Agora, junto a todas as buracrocias, incertezas de futuro e dores, me sinto roubada da possibilidade de realizar um desejo que se entranhou em mim, que nasceu da relação, mas não nascerá.
Toda exteriorização é metonímica