Hoje dá-se início ao fim. E isso dói.
Desde esse tempo venho pregando! Vociferando sobre a relação de parceria que deve ser a motivação de qualquer casal. O que me levou a agarrar-me, pregar-me a mim a suprasuficiência da vida conjugal, fazendo dela meu objetivo. Amo todos aqueles que se riem de mim, mais ainda que os outros. A contradição entre as camadas das ideias e a dos ideais não era um problema meu. Pregar permitia que eu seguisse não olhando o que doia: o abandono. Até que o real abandono do outro veio para arrancar-me, despregar-me, de onde tentava buscar minha sustentação. Entregando às pessoas ao redor apenas fragmentos do que havia causado o fim, criei uma nuvem de falas também fragmentárias que acusavam a mim de inocência, tolice, passividade. Contudo, apesar de isso ser possível agora, tais opiniões oriundas dos lábios de pessoas importantes devem ter sido terríveis o suficiente até cinquenta anos atrás.
Exercício de escrita inspirado em proposta de curso de Noemi Jaff.
Vi, então, um exercício de escrita em alguma newsletter que acompanho. Ele consiste em algo mais ou menos assim: escolher duas frases aleatórias, de dois livros aleatórios e criar um parágrafo dando sentido a elas.
Fiz algumas adaptações. Resolvi que, independentemente das frases que aparecessem, meus fragmentos seriam mote do texto. Decidi também que o texto a ser criado poderia ter mais que um parágrafo. A escolha dos livros não foi aleatória, são os dois que tenho carregado na esperança de terminar de lê-los. Por questão de extensão, resolvi pegar duas frases do livro de Dostoiévski, pois a primeira em que meus olhos caíram era muito curta. Ao fim, essas frases pareceram-me complementarem-se, quase criando um enredo.
"Desde esse tempo venho pregando! Por outro lado, amo todos aqueles que se riem de mim, mais ainda que os outros."
DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. O sonho de um homem ridículo. In: Os melhores contos de Dostoiévski. São Paulo: Círculo do Livro, p. 150
"Contudo, apesar de isso ser possível agora, tais opiniões oriundas dos lábios de pessoas importantes devem ter sido terríveis o suficiente até cinquenta anos atrás"
WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014. 1ªed. p.79