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O desejo

 Saio do trabalho com a cabeça fervilhando de ideias, ao chegar em casa, uma prostração me acomete. Essa prostração ansiosa se escancarou na pandemia, mas não começou lá.

Independentemente de qual foi o ponto inicial, é uma situação que vem se arratstando e segue tal qual uma montanha-russa, com subidas alegres, momentos de conquistas que me deixam toda esperançosa. Aí vou para o fundo da caixa da Pandora agarrada à esperança. Tem sempre havido uma queda. Por isso, talvez, busco conforto e alegrias naquilo que se conhece enos afasta de nós mesmos: séries, reality shows, podcasts, vídeos sobre novelas, tvs e muita, mas muita política. Acompanhada quase sempre de cerveja, vinho, e outros alteradores de consciência para além dos receitados pela minha psiquiatra. Imagino que ela já não mais saiba qual caminho seguir, o que me dizer para que eu me movimente. 
Sou uma tímida espalhafatosa, mais espalhafatosa do que permito, acredito. Gosto de atenção e, por isso, quero criar. Tenho tratado essa vontade há tempo como piada "Ah, acho que o jeito é me tornar blogueirinha, viu" "do jeito que está o mundo, vai me restar tentar o Instagram" e blábláblá... Quero escrever e criar. Pode ser que nada disso funcione, que eu não tenha relevância qualquer, mas quero. É preciso, então, enfrentar esse desejo, infantil talvez, e  fazer o que fico a pensar o tempo todo.

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Hoje dá-se início ao fim. E isso dói. Desde esse tempo venho pregando!  Vociferando sobre a relação de parceria que deve ser a motivação de qualquer casal. O que me levou a agarrar-me, pregar-me a mim a suprasuficiência da vida conjugal, fazendo dela meu objetivo.  Amo todos aqueles que se riem de mim, mais ainda que os outros.  A contradição entre as camadas das ideias e a dos ideais não era um problema meu. Pregar permitia que eu seguisse não olhando o que doia: o abandono. Até que o real abandono do outro veio para arrancar-me, despregar-me, de onde tentava buscar minha sustentação.   Entregando às pessoas ao redor apenas fragmentos do que havia causado o fim, criei uma nuvem de falas também fragmentárias que acusavam a mim de inocência, tolice, passividade. Contudo, apesar de isso ser possível agora, tais opiniões oriundas dos lábios de pessoas importantes devem ter sido terríveis o suficiente até cinquenta anos atrás.  Exercício de escrita inspirado em...
Tanto por dizer que só mesmo o silencio pode abrangê-lo Afinal o silêncio, mais que ausência, é presença É nele que me expresso É ele que me inquieta, Como me inquieta tudo que é denso Tudo que é presença Tudo que é magia Tudo que é você Então respondo e pergunto: _"Pra que doer?" Escrito em 2009

oitenta e oito

 88 Duas vezes o infinito pôs-se no horizonte 8 infinitos gestados, gerados e vivendo seus próprios infinitos. Anos a serem celebrados Sendo parte de 4,  multiplicou-se, dobrou-se, desdobrou-se Celebramos os 8 pratos postos à mesa sem falta As 8 camas aprontadas para o aconchego das noites As 8 vidas que a ti, hoje, celebram Se agradece às recusas necessárias às batalhas, a sós, enfrentadas às mãos calejadas de trabalho  e suaves de vaidade e beleza Eu, parte dos 23, celebro  a necessidade de ter música na casa  minha parte da herança celebro o prazer dos programas de auditório esquecendo-me na fantasia criada celebro o gosto da dança que, junto à sua beleza,  a faz rainha do baile oitenta e oito: dois infinitos no horizonte.